segunda-feira, 15 de julho de 2013

'Another Self Portrait' saindo do forno...

Como já era esperado, o site oficial de Bob Dylan anunciou que o próximo volume (Vol.10) das 'Bootleg Series' é um conjunto de "alternate takes"; "demos" e versões "ao vivo" do período de gravações dos álbuns 'Self Portrait' e 'New Morning' (1969-1971).

O disco terá o subtítulo 'Another Self Portrait' e, assim como o álbum original, a capa também é assinada pelo próprio bardo.

As 'liner notes' serão do crítico Greil Marcus, aquele mesmo da resenha "Que Merda é Essa?" do lançamento original, além de raras fotografias e etc.

A versão 'standard' vem com CD duplo + libreto e a versão 'deluxe', além dos 2 CDs e libreto, trará +1 livro com fotos de John Cohen e Al Clayton e o melhor de tudo: 2 CDs com a apresentação histórica de Bob Dylan & The Band, "ao vivo" no 'Isle Of Wight Festival', 1969!


terça-feira, 2 de julho de 2013

Hora de celebrar: 45 anos de ‘Music From Big Pink’, da The Band!

Depois de nos brindar com um texto pra lá de bacana, sobre as 'Basement Tapes', de Bob Dylan & The Band, o amigo dylanesco Ismael Calvi Silveira nos presenteia com a celebração dos 45 anos de um dos melhores álbuns da história (o melhor?): 'Music From Big Pink', disco de estréia da The Band. Confiram:

Hora de celebrar: 45 anos de ‘Music From Big Pink’, da The Band!

Se na semana anterior estávamos celebrando os 38 anos do lançamento de Basement Tapes, a versão oficial das sessões de gravação entre Bob Dylan e The Band, hoje temos mais uma razão para comemorar. Neste dia, no aparentemente longínquo ano de 1968, chegava às lojas 'Music From Big Pink', emblemático disco de estreia da The Band que ajudou a reformular a música americana posterior a seu surgimento. O disco marca o início de um legado que ultrapassa a própria duração da banda, e isso pode ser visto através da idolatria de alguns músicos: Eric Clapton, Roger Waters e George Harrison, por exemplo, são fãs declarados tanto da Banda quanto do 'Music From Big Pink'. Isso é um belo indicador do que nos espera, não?

Há 46 anos atrás, reunidos com Bob Dylan em uma casa rosada próxima a Woodstock, em West Saugerties, Nova Iorque, tudo começava. Os então The Hawks já tinham trabalhado com a lenda Ronnie Hawkins e com o próprio bardo, embora apenas como banda de apoio; ou seja, a rapazeada já era escolada e tinha uma afinação bacana. Mas foi naqueles meses em que Garth Hudson, Levon Helm, Richard Manuel, Rick Danko e Robbie Roberson estiveram sob a orientação íntima de Bob Dylan, que a The Hawks se credenciou a abandonar aquele nome que representava a sua metafórica infância musical. O ritual de passagem estava completo e os cinco estavam aprovados: era hora de escolher o verdadeiro nome pelo qual eles seriam lembrados, o nome que representaria os homens nos quais eles haviam se tornado ao longo de meses de aulas práticas sobre folk, country e blues com o mestre Dylan.
A Banda pode soar um tanto presunçoso, mas é, no fundo, bastante certeiro e veio de uma forma natural. Como o Richard Manuel explicou no filme The Last Waltz, primeiro eles haviam tentado como “The Honkies” e “The Crackers”, mas a gravadora não aprovara os nomes (e, cá entre nós, fez um grande favor aos caras). Durante uma turnê com Bob, eles eram chamados de “the band” e, como todo apelido indesejado, acabou pegando. Assim, aclamados pela opinião pública desde a escolha do nome, era hora de gravar seu próprio material, digno do nome.

Em 1968, nosso grupo partiu de um material já pronto: três faixas que constam no álbum (“Tears of Rage”, “This Wheel’s On Fire” e “I Shall Be Released”) já haviam sido compostas nas sessões de 1967 com Dylan. Além dessas três faixas, há mais um cover, um clássico do country: “Long Black Veil”. De resto, foram compostas outras 7 canções para integrar a obra. “To Kingdom Come”; “In A Station”; “Caledonia Mission”; “We Can Talk”; “Chest Fever” e “Lonesome Suzie” são algumas acompanhantes de luxo do carro-chefe da banda: “The Weight” (que, como falamos no texto sobre o Basement Tapes, acabou virando sinônimo de algo genuinamente americano).
Unindo o legado dos tempos de Ronnie Hawkins com o treinamento dylanesco, Garth, Levon, Richard, Rick e Robbie criaram algo novo, único. Dali surge o tal do "roots rock", esse gênero significativo que, na verdade, é uma grande mistura de tudo. Há no som “inaugurado” em 'Music From Big Pink' uma união harmoniosa e orgânica de blues, R&B, soul, country e folk. De Curtis Mayfield ao próprio Dylan, muita gente serviu de base para esse espaço atemporal da música americana que é Music From Big Pink. Essa nova perspectiva, por exemplo, foi o que levou Eric Clapton a abandonar o Cream e procurar novas sonoridades junto do Blind Faith, e depois apoiando o duo Delaney and Bonnie ou mesmo formando o projeto Derek and The Dominos.

Robbie entrou com a maioria das letras (das originais do grupo, apenas “We Can Talk” e “Lonesome Suzie” são de autoria Richard Manuel) e com um trabalho de guitarra que, num primeiro momento, não parece se destacar tanto. Rick Danko (baixo), Richard Manuel (piano) e Levon Helm (bateria) também não fazem questão de se exibirem através de seus instrumentos. Na verdade, apesar de em termos ‘instrumentais’, ser Garth Hudson o verdadeiro gênio – e o som fulminante de seu órgão ser uma boa chave de entendimento do que é a The Band – é o conjunto da obra que impressiona. O absoluto clima de profunda amizade tira o fôlego, e a unidade do som parece operar com o funcionamento de uma família que se ama. Robbie, certa vez, disse que as músicas acabaram tão ‘redondas’ pelo fato de nenhum deles ser um grande músico – modéstia à parte, a verdade é que eles desenvolveram uma sinergia que representa muito bem como a música deveria ser, ao menos na minha concepção de música.

Por outro lado, se quase não há virtuosismo instrumental por parte dos membros da The Band, é difícil não ficar absolutamente embasbacado com os vocais. O jogo de vozes estabelecido entre Danko, Manuel e Helm é uma das coisas mais lindas que já ouvi por aí. Individualmente, cada um deles representa um tipo de vocal diferente – algo propício para a variedade de estilos e sonoridades que a banda abarcava -, mas juntos eles se tornam deslumbrantes. A voz de Richard é uma faca afiada e quente, usando um falsete lindo, ela desliza através dos corações como se fossem feitos de manteiga – acho que no rock há poucas vozes tão lindas. Já Rick é, normalmente, o mais descontraído dos três – ele costuma acrescentar um tom “brincalhão” às músicas, embora também seja capaz de emocionar. E Levon, talvez a figura paterna dessa família, traz autenticidade aos canadenses: como bom sulista, seu sotaque acrescenta um sabor especial ao seu vocal carregado. Ele é, acreditem-me, um artigo genuíno. Essa simbiose entre as vozes  é uma forte marca da banda. 
Apesar de todas essas qualidades e da admiração de alguns músicos importantes, “Music From Big Pink” não foi um sucesso instantâneo, todavia. As vendas começaram devagar, mas uma resenha muito elogiosa de Al Kooper na revista 'Rolling Stone' ajudou a chamar mais atenção para o surgimento da The Band. Em 1968, “Music From Big Pink” ficou na 30ª posição na lista de álbuns pop da 'Billboard', enquanto “The Weight” atingiu apenas a 63ª posição na tabela de singles 'Billboard Hot 100'. Por outro lado, a recepção foi um pouco mais calorosa no Canadá (35º lugar) e no Reino Unido (21º). O que, pelo que me parece, foi fundamental no alavancamento da The Band e do 'Music From Big Pink' ao sucesso foi a apresentação da banda no festival Woodstock em 1969 e a inclusão de “The Weight” no magistral filme "Easy Rider" (Sem Destino), também de 1969. Daí pra frente, ficou difícil segurar aquele pessoal. Em 2003, a 'Rolling Stone' elegeu “Music From Big Pink” como 34º melhor disco de todos os tempos, em uma lista com 500 álbuns.

Em 2008, no aniversário de 40 anos de 'Music From Big Pink', o disco recebeu uma edição remasterizada de luxo, com 9 faixas bônus. São elas: “Yazoo Street Scandal”; um take alternativo de “Tears of Rage”, “Katie’s Been Gone”; o cover de “If I Lose” (composta por Charlie Poole); “Long Distance Operator”; um take alternativo de “Lonesome Suzie”; “Orange Juice Blues (Blues For Breakfast)” (composta por Richard Manuel); cover do standard de blues composto por Big Bill Broonzy, “Key To The Highway”; e “Ferdinand the Imposer”.
O fato é que mesmo depois de passados 45 anos, “Music From Big Pink” permanece uma obra-prima da música norte-americana. Além de ter influenciado, como já falamos antes, Clapton, Waters e Harrison, o disco também ajudou a formar o gênero de roots rock. Aquele jeito, na época novo, de fazer o rock parecer velho, como se viesse de um tempo imemorial – alguma época de ouro perdida -, ainda é o exemplo mais bem acabado, na minha opinião, do benefício que essa viagem pelas raízes musicais de um país pode trazer ao rock. “Music From Big Pink” é uma aula sobre como fazer um disco: desde o conceito ‘orgânico’ das músicas, sem frescura ou exibicionismo gratuito, até à abertura da mente dos músicos para novas influências.

Por Ismael Calvi Silveira
Editor do site http://4oldtimes.blogspot.com e apresentador dos programas 4oldtimes e Expedição ao Rock na web radio www.radioputzgrila.com.br

Há 38 anos, chegava às lojas Basement Tapes, álbum de Bob Dylan e The Band

Mais um amigo dylanesco faz sua ‘estréia’, aqui no Blog Dylan: Ismael Calvi Silveira nos brinda com um ótimo texto sobre o álbum 'Basement Tapes', discaço de Bob Dylan & The Band. Vale conferir:

Há 38 anos, chegava às lojas Basement Tapes, álbum de Bob Dylan e The Band.
Dia 26 de junho foi dia de festa. Estamos todos nós, fãs daquilo que veio a se convencionar como "Americana", cheio de motivos para estarmos celebrando: na referida data se completaram 38 anos do lançamento de "The Basement Tapes", o registro oficial da primeira colaboração entre Bob Dylan e The Band, um encontro que mudaria o rumo da música norte-americana. Apesar de ter sido lançado apenas em 1975, as sessões que geraram "The Basement Tapes" ocorreram em 1967 e já circulavam, por baixo dos panos, como bootlegs. Vejamos, então, do que se trataram estas sessões e qual a importância deste disco chamado "The Basement Tapes".

Depois de uma extensa turnê mundial entre 1965 e 1966, apoiado pelos The Hawks (era assim que eles eram chamados antes de virarem The Band), Bob se encontrava cansado e havia caído em certa desgraça com seu público, que até o chamava de "Judas" por ter abraçado uma sonoridade mais próxima ao rock’n’roll. Quando retornou aos EUA, seu agente havia marcado mais inúmeras apresentações através do país, que acabaram sendo todas canceladas por um grande infortúnio. Em 29 de julho de 1966, Dylan sofreu um acidente de moto que mudaria tudo. Como o próprio bardo declarou, em entrevista cedida em 1969: "Eu tive um pavoroso acidente que me deixou fora da ativa por um tempo, e eu não percebi a importância daquele acidente pelo menos até ter se passado um ano. Eu percebi que havia sido um acidente real. Quer dizer, eu pensei que eu apenas me levantaria e voltaria a fazer o que eu fazia antes... mas eu não podia mais fazer isso".
Em sua casa, próxima a Woodstock, Dylan mudou seu estilo de vida durante o ano de 1967. Os Hawks foram chamados para comparecer à cidade para gravar com Dylan, e alugaram a Big Pink (casa que os rapazes tornariam famosa dois anos depois, ao lançar seu disco de estreia, “Music From Big Pink”). Nesse tempo que estiveram juntos, por vários meses, Dylan se reaproximou da música norte-americana de raiz e apresentou os caras da The Band a esse universo, já que até ali, eles eram estritamente músicos de rock. Entre a gravação de versões para antigas canções tradicionais e a composição de novos temas, uma certa sinergia surgiu entre mentor e alunos. O porão do Big Pink fornecia o pano de fundo caseiro, intimista, para o disco; a banda trabalhava para deixar Bob à vontade; e Dylan, por sua vez, destilava seu humor através da genialidade na composição. Havia algo ali de cunho bastante familiar, caseiro. E é disso que trata "The Basement Tapes" e os demais bootlegs: um ambiente rural, quieto e profundamente familiar.

É claro que o lançamento oficial, tão afastado das sessões originais, gerou polêmicas e controvérsias. A seleção de faixas, 24 ao todo, não representam todo o material composto em 1967 e, na verdade, tem 8 músicas que nem sequer contam com a participação de Dylan. De acordo com Robbie Robertson, principal responsável pela seleção das canções que entraram no álbum, isso aconteceu porque nem ele, nem Bob Dylan e nem Garth Hudson tinham acesso a todas as gravações originais. Criou-se um clima tenso, também, ao redor do disco: alguns críticos acreditavam que a inclusão das oito músicas da The Band era a forma de Robertson afirmar que o grupo fora tão ativo nas “Basement Tapes” quanto o bardo. Para os mesmos críticos, isso era um sacrilégio, já que as faixas da The Band "atrapalhavam a unidade do material de Dylan".

Mas polêmicas à parte, o álbum é, na minha singela opinião, sensacional. Há, nele, algumas de minhas canções favoritas da parceria Dylan/Band. "Goin' To Acapulco" certamente seria minha escolha primária, mas "Clothes Line Saga"; "Too Much Of Nothing"; "You Ain't Goin' Nowhere" e, é claro, "This Wheel's On Fire" não podem ficar muito pra trás. Acredito, inclusive, que essas canções servem muito bem para dar uma amostra geral da unidade do álbum. As temáticas mais frequentes foram o nada, sinalizando para o caráter descompromissado das sessões de gravação: eram apenas amigos se divertindo. E, nesse meio tempo, Bob Dylan pôde se reinventar e, também, se redescobrir. De certa forma, "The Basement Tapes" ia à contramão de outros álbums gravados em 67, como, por exemplo, o “Sargeant Pepper Lonely Hearts Club Band”, dos Beatles. Como afirmou Bob em uma entrevista datada de 1978: "Eu não sabia como gravar da mesma forma que as outras pessoas fazem, e eu nem queria. Os Beatles tinham recém lançado Sgt. Pepper, que eu não curti nem um pouco. Achei ele um álbum bastante indulgente, apesar de as músicas neles seram realmente boas. Eu não achava que toda aquele produção fosse necessária."
 De qualquer forma, o que surgiu a partir disso foi o princípio de um novo jeito de se fazer (e mesmo de se pensar) música. Uma abordagem mais direta, sem tanta produção, que mergulhava em um universo ancestral de sonoridades que formaram a identidade musical norte-americana. "The Basement Tapes" e os outros bootlegs foram instrumentais na construção do "roots rock" e do "americana", eles materializaram um som tornado uníssono, que até então era uma multiplicidade enorme de estilos. Country, folk, blues... tudo foi jogado dentro do caldeirão, temperado com um rock suave e mexido até ferver e formar algo novo e único - algo genuinamente americano. E isso fica claro se nós dermos uma ouvida na discografia da The Band, por exemplo. Como explicou Joanna Colangelo, do site No Depression, no seu artigo "The Weight: Quando uma canção se torna um hino", o som da The Band, ou mais especificamente a canção "The Weight", representam a própria essência daquilo que é genuinamente americano.

Aquilo que foi alguns meses na vida de seis amigos acabou se tornando eterno na história da música. Horas de gravação se transformaram em um legado extenso de influência e de celebração. E é exatamente por isso que comemoramos hoje, 38 anos depois do lançamento da versão oficial daquelas gravações, as "Basement Tapes".

Por Ismael Calvi Silveira
Editor do site http://4oldtimes.blogspot.com e apresentador dos programas 4oldtimes e Expedição ao Rock na web radio www.radioputzgrila.com.br

quarta-feira, 5 de junho de 2013

A Hard Rain's A-Gonna Fall

Nessa chuva forte que cai em Recife e me impediu de sair de casa esta manhã, me lembrei deste texto, já quase esquecido. Eu o escrevi em janeiro de 2006, numa espécie de fluxo de consciência. Era uma época um pouco conturbada para mim, que estava em processo de separação de meu 1º casamento e dentro de um mês deixaria a casa onde até então vivia com meus filhos. Embora tenha um cunho pessoal, não deixa de ser um texto ‘dylanesco’, de modo que resolvi publicá-lo aqui no Blog e compartilhá-lo com vocês...

Dia desses eu caminhava pelas ruas do Recife Antigo, por volta do meio-dia. Era uma sexta-feira à toa, em janeiro de 2006. Eu acabara de sair do trabalho, numa pausa para o almoço e aproveitei para dar uma passeadinha. Teria sido uma sexta-feira qualquer, exceto pelo calor do verão nordestino, se eu não tivesse resolvido entrar na Livraria Cultura e ido direto à seção de DVDs. Lembrei-me de um DVD que há muito queria comprar: “Concert for Bangladesh”, do ex-Beatle George Harrison e amigos. Achei o disco, pedi ao vendedor para colocá-lo para rodar e então, controle-remoto nas mãos, fiquei passando de música em música, todas maravilhosas. Finalmente chegou o capítulo 15: “Blowin´ in the Wind”, de Bob Dylan. Resolvi deixá-la tocar inteirinha. De repente, comecei a sentir uma tristeza profunda ao ouvir aqueles versos: “Quantas estradas precisará um homem andar, antes que possam chamá-lo de homem?”; “Sim, quantos ouvidos necessita um homem, para que possa escutar as pessoas chorarem?”; “Sim e quantas mortes custará, até que ele saiba que gente demais já morreu?”. Decidi comprar o DVD e colocá-lo no fundo de uma sacola, bem escondido como um segredo. Fui para casa e, depois de almoçar e tomar um banho, voltei ao trabalho. Deixei o disquinho no quarto, enterrado no fundo de uma gaveta, como uma emoção que teima em aguardar o momento certo para aflorar. Ao final do dia de trabalho, retornei para casa. Liguei o DVD Player e comecei a assistir ao disco. O show é um concerto de 1971, realizado no Madison Square Garden, em Nova York e é considerado o primeiro destes grandes eventos beneficentes, hoje tão comuns. Começa com uma belíssima apresentação de músicos indianos, liderados pelo genial Ravi Shankar. Após muitas louvações a Deus e pedidos de ajuda à comunidade internacional para as pessoas famintas de Bangladesh, além da apresentação de diversos artistas convidados, inclusive o anfitrião, sobe ao palco Bob Dylan. Sem maiores apresentações, chega cantando “A Hard Rain´s A-Gonna Fall”. Comecei a entrar em transe... Minutos depois, quando ele emendou com “Blowin´ in the Wind”, as lágrimas avolumaram-se de tal maneira em meus olhos, que não mais consegui segurá-las.

Minha filha acabara de entrar no quarto. Um recinto que lá em casa, por motivos óbvios, costumamos chamar de “Home-Theater do Papai”. Um pouco tímida, sentou-se ao meu lado, perguntou se eu estava triste... Assistimos ao restante do show, tomei outro banho, jantamos e resolvi me deitar no escuro. Estava de alguma forma alterado pelo que acabara de assistir. Coloquei pra tocar um CD de Bob Dylan e fiquei ali mesmo na escuridão, só escutando... Comecei então a pensar na minha vida até aquele instante...
Oh, where have you been, my blue-eyed son?
Oh, where have you been, my darling young one?
I've stumbled on the side of twelve misty mountains,
I've walked and I've crawled on six crooked highways,
I've stepped in the middle of seven sad forests,
I've been out in front of a dozen dead oceans,
I've been ten thousand miles in the mouth of a graveyard,
And it's a hard, and it's a hard, it's a hard, and it's a hard,
And it's a hard rain's a-gonna fall.

Na infância que nunca mais voltará ou talvez em outra existência; nos brinquedos que há muito tempo deixei; nas brincadeiras que realizei e naquelas que deixei de realizar; nas escolas que estudei; nas primeiras músicas que escutei; os primeiros amigos; os primeiros professores... Lembrei até de queridos familiares que já se encontram em outro plano... De repente me vi recordando a adolescência, a juventude, momentos talvez felizes de minha vida. Enquanto isto no aparelho de CD...

Oh, what did you see, my blue-eyed son?
Oh, what did you see, my darling young one?
I saw a newborn baby with wild wolves all around it
I saw a highway of diamonds with nobody on it,
I saw a black branch with blood that kept drippin',
I saw a room full of men with their hammers a-bleedin',
I saw a white ladder all covered with water,
I saw ten thousand talkers whose tongues were all broken,
I saw guns and sharp swords in the hands of young children,
And it's a hard, and it's a hard, it's a hard, it's a hard,
And it's a hard rain's a-gonna fall.

As primeiras utopias; as primeiras namoradas; as primeiras transas que tive e até as que não tive; as primeiras festinhas; as primeiras decepções e frustrações. Lembrei das músicas e filmes que marcaram minha adolescência; dos sonhos de montar uma banda de rock; aliás, música era algo para o qual definitivamente eu não tinha o menor talento. Enquanto isto no CD Player...
And what did you hear, my blue-eyed son?
And what did you hear, my darling young one?
I heard the sound of a thunder, it roared out a warnin',
Heard the roar of a wave that could drown the whole world,
Heard one hundred drummers whose hands were a-blazin',
Heard ten thousand whisperin' and nobody listenin',
Heard one person starve, I heard many people laughin',
Heard the song of a poet who died in the gutter,
Heard the sound of a clown who cried in the alley,
And it's a hard, and it's a hard, it's a hard, it's a hard,
And it's a hard rain's a-gonna fall.

Pensei na minha dura transição para a idade adulta, mais dura ainda porque apesar dos 37 anos (na época do texto), sinto-me velho, como se me restasse apenas um sopro de vida. Talvez eu tenha este sentimento porque não encaro muito bem o fato de que meu tempo já esteja passando. The Times They Are A-Changin´... Ao mesmo tempo, sinto-me criança, o vento no rosto, a inocência, os desejos mais incontidos... Talvez seja isto mesmo, um misto de velho e criança, o suficiente para não ter pressa e ao mesmo tempo querer tanto e tudo.
Lembrei de meus amigos. Daqueles que continuam ao meu lado e daqueles que já partiram para uma outra existência. Dos que a vida foi tratando de me ofertar, ao longo da jornada. Daqueles que o tempo separou e daqueles que o espaço tratou de separar. Lembrei também daqueles cuja amizade é tão forte, que nem mesmo o tempo e a distância são capazes de apagar... Enquanto isto no CD player...

Oh, who did you meet, my blue-eyed son?
Who did you meet, my darling young one?
I met a young child beside a dead pony,
I met a white man who walked a black dog,
I met a young woman whose body was burning,
I met a young girl, she gave me a rainbow,
I met one man who was wounded in love,
I met another man who was wounded with hatred,
And it's a hard, it's a hard, it's a hard, it's a hard,
It's a hard rain's a-gonna fall.

Lembrei do dia de meu casamento, das promessas, das alianças, dos sonhos de vida, dos filhos que viriam e vieram. Lembrei da minha família... da mulher que amei um dia, do filho que perdemos, dos que a vida nos presenteou. Como é difícil essa tal adolescência, quão intolerante talvez eu seja, quão duro a vida haverá me tornado...

Me veio à mente a figura de meu pai. Sua luta, sua bravura e aquelas palavras que ele costumava dizer, pois quando criança aprendera com meu avô: “Para uma vida digna e honrada é preciso três coisas: consciência; consciência e consciência”.

No final da tal retrospectiva, pensei em todas as escolhas feitas até aqui, nos sucessos e frustrações, frustrações estas que me trouxeram arrependimentos, mas nem mesmo destes estou bem certo... As utopias perdidas, os sonhos despedaçados, a crença num mundo melhor... Tudo que deixei para trás e tudo que pretendo retomar... Os lugares que até aqui, nesta longa ou curta existência pude conhecer, as pessoas que amei e também as que não pude amar.

Pensei muito, mas muito mesmo, no futuro. Ah! O futuro: o que ele espera de nós? Enquanto isto o CD player finalmente tocava...

Oh, what'll you do now, my blue-eyed son?
Oh, what'll you do now, my darling young one?
I'm a-goin' back out 'fore the rain starts a-fallin',
I'll walk to the depths of the deepest black forest,
Where the people are many and their hands are all empty,
Where the pellets of poison are flooding their waters,
Where the home in the valley meets the damp dirty prison,
Where the executioner's face is always well hidden,
Where hunger is ugly, where souls are forgotten,
Where black is the color, where none is the number,
And I'll tell it and think it and speak it and breathe it,
And reflect it from the mountain so all souls can see it,
Then I'll stand on the ocean until I start sinkin',
But I'll know my song well before I start singin',
And it's a hard, it's a hard, it's a hard, it's a hard,
It's a hard rain's a-gonna fall.
Você deve estar se perguntando: o que Bob Dylan tem a ver com tudo isso? Fácil responder. Para mim, o bardo, com suas letras, suas músicas, sua voz anasalada e seu estilo inconfundível, remete exatamente a esta possibilidade de uma auto-análise. Não importa se ao som de uma canção melancólica, mas que, por incrível que pareça, me faz muito bem! Gosto do Bob Dylan, porque as palavras lhe vêm direto do coração à boca, sem serem processadas pelo cérebro, justamente porque tem coisas no coração que a cabeça se encarrega de sepultar, você me entende?

Desde garoto tive muitos ídolos, curti muitas bandas, muitos artistas, uma infinidade de músicas, poemas, filmes e tudo mais. Agora, que a vida mais parece um turbilhão, precisava de uma âncora e a encontrei.

Penso que eu seja uma pessoa melhor, desde que conheci Bob Dylan com mais profundidade. Li suas crônicas, sua biografia, seus encartes e notas. Às vezes o sinto como um amigo próximo que, quando tenho vontade de ouvir palavras sábias, simplesmente ligo o CD Player e elas começam a me ressoar pelos ouvidos...

Recife, 09 de janeiro de 2006.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Everybody must get stoned...


O amigo dylanesco, colaborador assíduo deste blog e grande escrevinhador, Diego Quadros, faz sua singela homenagem ao álbum 'Blonde on Blonde', que esta semana completou seu 47º aniversário, ainda exalando o frescor da juventude. Vamos ao texto:

47 anos de ‘Blonde on Blonde’, de Bob Dylan – o primeiro álbum duplo de relevância no rock e na música pop em geral.


Não está exatamente entre os meus favoritos e tenho certeza de que muitos dylanmaníacos não compartilham do sentimento. Mas é inegável que ‘Blonde on Blonde’, sétimo álbum do Dylan, lançado em 16 de maio de 1966, é dos mais importantes em vários aspectos. E também figura entre os melhores da extensa carreira do bardo. Por quê? Em primeiro lugar, pelas faixas que compõem o trabalho. Temos ali alguns dos maiores sucessos do cantor, como ‘Just Like a Woman’, ‘I Want You’ e ‘Stuck Inside of Mobile with the Memphis Blues Again’, e canções cujas letras esbanjam preciosas imagens poéticas, tal qual ‘Visions of Johanna’ (essa, das minhas favoritaças). Mas o repertório é apenas uma das munições desse disco, eleito – okay, eu sei o quão furadas são essas listas! – pela revista Rolling Stone o nono melhor de todos os tempos. Na minha opinião, é o conjunto de ousadias inovadoras – ou de inovações ousadas – que torna esse bolachão duplo tão relevante à música popular e, sendo mais específico, ao rock and roll como ritmo, gênero musical e filosofia de vida.


Antes de tudo, consideremos o período em que foi gravado, durante a turbulenta digressão em que Dylan e seus então escudeiros nomeados The Hawks (futuros The Band) eram massivamente vaiados e xingados por todo o território norte-americano, e também pelo resto do mundo, em virtude de o ex-cantor folk de protesto ter se rendido à eletrificação e ao mercantilismo musical. (Isso, aliás, é frequentemente citado por mim como exemplo de “colhões” que tanto faltam a certos artistas de hoje, que mal toleram uma vaiazinha básica e desatam a choramingar e “xingar muito no Twitter”. Vão se foder!) Outro ponto chave de contextualização é ter em mente que Blonde on Blonde seria o último álbum de Mr. Robert Allen antes do famigerado acidente de motocicleta, que o retiraria de cena por um bom tempo e que precederia álbuns totalmente diferentes na sequência dos anos.


Pois talvez fosse já vislumbrando mudanças na carreira que Dylan trocou os estúdios de Nova Iorque pelo de Nashville, capital da country music, naquela virada de 1965 pra 1966, a fim de gravar esse disco. E que escolha acertada! Das histórias conhecidas de bastidores das gravações, Blonde talvez seja o que tenha rendido os causos mais peculiares e engraçados. Logo de cara, sabendo da exigência de Bob em registrar as músicas ao vivo, com todos os músicos tocando ao mesmo tempo, o produtor Bob Johnston precisou mandar pôr abaixo a serrote e marreta todas as divisórias que separavam o ambiente. Dylan chegou no estúdio apenas com fragmentos esparsos de letras, sem apresentar aos músicos contratados, pelo menos no início das sessões, qualquer composição propriamente finalizada. Simplesmente escrevia a letra na hora e mandava que o acompanhassem. E o que era pior: quando todos pensavam se tratar de ensaio pra determinada canção, o artista maluco que os contratara decretava sem rodeios que o take recém executado era o que seria incluído no disco. E foi assim com praticamente todas as faixas. Sem contar os títulos, que eram escolhidos aleatoriamente no calor do momento.


As duas canções que respectivamente abrem e fecham o álbum também renderam boas lembranças por parte dos envolvidos. A primeira, ‘Rainy Day Women #12 & 35’, cujo refrão proferia o ambíguo verso “everybody must get stoned” (algo como “todo mundo precisa ser apedrejado” e “todo mundo precisa ficar chapado”), de acordo com Dylan, não podia ser executada por um bando de caretas. Então ele fez que buscassem a bebida mais forte de Nashville (um líquido verde sugestivamente batizado de Leprechaun) e distribuiu baseados pelo estúdio no intuito de “relaxar” a rapazeada. Como se não bastasse, os músicos também decidiram trocar de instrumentos entre si, não importando se dominavam ou não as técnicas inerentes a cada um. Afinal, a descontração era o espírito desse som, não? O resultado é aquela faixa gozada, ao estilo de banda de marchinhas desengonçada, com gargalhadas e risadinhas carregadas de chapação entre uma estrofe e outra. Em outras palavras: uma canção fantástica! (e que chegou a ser banida das rádios por conta da paranoia moralista da época).


Na gravação da segunda canção referida, ‘Sad Eyed Lady of the Lowlands’, que encerra ‘Blonde on Blonde’, o que até então era impensável aos profissionais músicos do Tennessee: Dylan rabisca umas estrofes, mostra parte da música, pede que o sigam e então todos começam a tocar verso, após verso, após verso, após verso, após… os ponteiros do relógio engoliam o tempo, mas o compositor não dava sinais de que finalizaria a canção… passaram-se cinco minutos, dez minutos, onze minutos… até que Bob Dylan apontou aos companheiros o momento do desfecho. Acostumados a gravar faixas de dois minutos e meio, atendendo aos padrões comerciais das rádios, os caipiras não acreditavam que o carinha estranho de cabeleira emaranhada (“sussurrar algo em seu ouvido era como enfiar a cara no matagal”, lembrou alguém na ocasião) e que mal se comunicava com eles incluiria no disco uma faixa de onze minutos e vinte segundos. Mas assim aconteceu! E ‘Sad Eyed’ foi a canção popular mais longa já gravada naquele período.


Penso que foi esse conjunto de fatores inusitados, inerentes a uma personalidade complexa, multifacetada, que fez de ‘Blonde on Blonde’ um álbum tão revolucionário como o seu predecessor, ‘Highway 61 Revisited’ - o primeiro duplo, o que continha a música mais longa do mercado fonográfico, o primeiro de um artista pop a ser gravado na country roots Nashville, o primeiro a citar o nome dos músicos de apoio locais na sua capa (o que gerou boa publicidade aos mesmos), etc, etc. Muitas outras abordagens poderiam ser feitas, por fãs que manjam até muito mais do que eu sobre o assunto, e tenho certeza de que todas seriam válidas e construtivas, porque é impossível definir um valor fixo, uma verdade absoluta, não só pra esse disco específico como pra toda obra do cantor de voz anasalada que tinha “as unhas sujas e não cheirava muito bem”.


Resta aí a lembrança.

Referências:
- Dylan, a biografia – de Howard Sounes;

- No direction home – a vida e a música de Bob Dylan – de Robert Shelton.

Originalmente publicado em 16 de maio de 2013, no ContraVersus.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Bob Dylan é eleito membro da 'Academia Americana de Artes e Letras'.

Bob Dylan é eleito membro da 'Academia Americana de Artes e Letras'. É o primeiro músico de rock a ser indicado pelos integrantes da organização, desde sua criação, em 1898.
Os membros da Academia – que abrange música, literatura e artes visuais – não conseguiram decidir se Dylan mereceria entrar por seus textos ou suas músicas e o indicaram como um membro honorário, como fizeram com Meryl Streep, Woody Allen e Martin Scorsese.
 
“O conselho de diretores considerou a diversidade do trabalho dele e reconheceu seu lugar icônico na cultura norte-americana”, disse Virginia Dajani, diretor executiva, à Associated Press. “Bob Dylan é um artista com múltiplos talentos cujo trabalho cruza várias disciplinas e desafia as categorizações”.

Além das escolhas honorárias, a Academia Americana de Artes e Letras consiste em 250 artistas, músicos e escritores. As vagas só são abertas após a morte de um membro e o substituto é escolhido por outros integrantes através de uma votação.
A Academia, fundada em 1898 e com sede Nova York, historicamente mantinha distância de artistas como Dylan, jazzistas e poetas modernistas, e reconhecia músicos clássicos e outros como Stephen Sondheim e Ornette Coleman. Dajani e outros membros apontaram outras organizações que reconheciam rock, como o Hall da Fama do Rock, como o motivo para se manterem distantes de roqueiros.
 
Da sua parte, Dylan aceitou a filiação – uma condição para que ele seja votado –, mas o empresário dele, Jeff Rosen, não garante que ele irá participar do jantar da Academia, em abril, ou da cerimônia de entrada, marcada para maio. O autor Michael Chabon, vencedor do Pulitzer, será o principal orador da cerimônia, cujo nome, em 2013, será “Rock & Roll”.

Fonte: Rolling Stone Brasil

 

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Há 40 anos, Bob Dylan colocava nas prateleiras um de seus álbuns menos prestigiados.


Eis aqui mais um artigo da lavra do amigo dylanesco Márcio Grings, jornalista, blogueiro, cronista do Diário de Santa Maria-RS e locutor/apresentador da Rádio Gáucha SM:

A sugestão deste post veio via amigo Sergio Pinho Alves. Em junho de 1970, Bob Dylan lançou um de seus discos mais porreteados de todos os tempos. Tanto que a famosa crítica do jornalista da Rolling Stone, Greil Marcus, começava assim: “Que merda é essa?!?!”. O LP duplo trazia uma colcha de retalhos de canções folclóricas que, ora flertam com o country, folk ou blues. Além disso, algumas faixas ao vivo gravadas meses antes no Festival da Ilha de Wight, acompanhado da The Band, também ganharam luz nessa obra. O resultado final foi um verdadeiro saco de gatos musical. A impressão de muitos na época era de que a fonte criativa de Dylan havia finalmente secado. E esse lance de recorrer ao repertório e aos músicos de Nashville, além de soar oportuno, para alguns também dava pinta de ser “o passeio de um intruso pelo terreno sagrado do cancioneiro americano”. Dessas sessões na primeira metade de 1970, saíram 24 canções que assinaram o trabalho. Segundo o próprio Dylan, ele apenas “aquecia a banda com algumas dessas canções”, e talvez no mínimo uma meia dúzia de números tenha sido registrada de forma equivocada. Outra dúzia de temas ficou devidamente arquivada. E nada dessas sobras foi utilizada no álbum posterior – “New Morning” – lançado quatro meses depois de "Self Portrait", também em 1970. Vale lembrar que mais rebarbas de covers foram usadas para os ensaios de “New Morning”, e também foram (supostamente) jogadas direto dentro de uma gaveta escura da Columbia, de onde (teoricamente) nunca teriam saído.

Depois dessa experiência de levar bordoada de todos os lados, seja da crítica ou do seu público, Dylan virou gato escaldado do artifício de revisitar canções típicas. Como já dissemos, a intenção dele era de que esses temas fossem sepultados para sempre e que nunca mais vissem a luz da humanidade. Infelizmente para ele e, talvez, felizmente para nós, não foi o que aconteceu.
O fato curioso é que essas sobras foram usadas como moeda de chantagem pela Columbia, quando seu disputado ex-menino dourado dos anos 1960 negociava um novo contrato com um selo concorrente. E como a Columbia detinha o direito sobre essas sobras malditas (malfadadas, pelo menos na visão de seu criador), resolveu as lançar em novembro de 1973. Em suma: Dylan foi obrigado a engolir esse sapo. Depois de passada a turbulência, quando o artista renovou seu contrato com a Columbia (onde está até hoje), ele exigiu que o disco fosse retirado do catálogo da gravadora. E foi o que aconteceu. O renegado álbum “Dylan” (como foi batizado o LP) virou peça de colecionador. Lembro que no início dos anos 1990, importei esse título em k-7 (via Japão), já que fora a única forma que havia encontrado de comprar o item que faltava na minha coleção. Atualmente ele pode ser facilmente encontrado em LP (via mercado de usados). Já em CD, o álbum continua sendo muito valorizado. Quem quiser adquiri-lo terá de pagar uma soma considerável para colocá-lo na estante.

Assim como “Self Portrait”, o disco “Dylan” parece ter melhorado com o passar do tempo. Sob esse verniz, muitos perceberam que havia adjetivos no contexto dessas sessões. Alguns artistas, inclusive, citam essa leva gravada na virada de 1969/1970 como influência nas suas respectivas obras. É o caso de Ryan Adams, por exemplo. Ouça o álbum de Ryan Adams & The Cardinals – “Jacksonville City Nights” (2005) e comprove.

Ainda sobre o álbum “Dylan”, que chega aos 40 anos de seu lançamento em 2013, uma das grandes críticas ao produto final que foi colocado nas prateleiras, passa pela mixagem, que realmente soa ruim em algumas faixas. Diversos dos backings femininos, por exemplo, parecem sobrepor a voz do protagonista. E das canções que figuraram no setlist do LP, há algumas autênticas “bolas fora”. Caso de “Mr Bojangles” (Nitty Gritty Dirty Band) e “Big Yellow Taxi” (Joni Mitchell) e “Ballad of Ira Hayes”, canção que se tornou conhecida na voz de Johnny Cash. Essas três versões não passam de meras alusões empalidecidas das originais.
Mas separando o joio do trigo, como não gostar de “Lilly of The West", “Can’t Help Falling in Love” (conhecida na voz de Elvis Presley), “A Fool Such As I” e a minha preferida: “Spanish is The Love Tongue”. Essa última inclusive saiu em compacto como lado B de “Watching The River Flow”, (1971) numa versão mais intimista da lançada dois anos depois. Na música, Dylan arrisca em cantar parte da letra em espanhol.

Nota 5 para o disco. Mas um nota 5 num LP de Bob Dylan tem peso maior.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Está tudo lá!


Acabo de rever, sei lá por quantas vezes, o filme ‘I’m Not There’ (Não Estou Lá, EUA, 2007), cinebiografia poética e surrealista de Bob Dylan, dirigida por Todd Haynes, que utilizou nada menos que 6 atores para interpretar as deferentes fases e aspectos da vida do músico.

Fazia tempo, muito tempo, que não colocava o filme pra rodar e é absolutamente incrível como a cada vez que revisito a película, mais a acho genial! Está tudo lá! A punjança, a beleza, a ira, a melancolia, as idas e vindas da vida e carreira do cantor/compositor/poeta/profeta/artista mambembe ou seja lá como for que você queira rotular o sujeito que, de repente, resolveu atender pelo nome de Bob Dylan. São inúmeras as referências, as citações, os saltos temporais e um misto de realidade crua e fantasia.

O pretexto da vez era procurar uma citação pra uma amiga, sempre uma desculpa pra dar ‘play’, novamente, no disquinho... Algumas cenas são de uma sutileza ímpar, daquelas em que parece ser possível sentir as lufadas de vento entrando pelas janelas.

O filme é quase um delírio do diretor norte-americano, no fundo, um fã confesso de Bob Dylan. A cinebiografia é bastante curiosa pela maneira como a história é contada. Como fosse uma poesia moderna, que foge à métrica tradicional, mas que encanta justamente por isso. É exatamente aí que está o talento do diretor, em transpor para as telas a genialidade do biografado, um artista que enveredou por diversos caminhos e, quando foi seguido, mudou de direção, sempre mantendo o único propósito, tradurzir-se em suas canções...
O elenco do filme é bárbaro e, como já citei acima, Haynes dividiu as diversas ‘personas’ do velho bardo, em diferentes personagens e o melhor de tudo, conseguiu que todos os atores ficassem bem à vontade, de fato encarnando os seus papéis. Seja o Dylan jovem/criança, interpretado por Marcus Carl Franklin, ou o Dylan dos primeiros anos e depois o cristão convertido, interpretados por Christian Bale. Seja o super-astro encarnado por Heath Ledger, ou o Dylan elétrico, papel que, surpreendentemente foi desempenhado por uma mulher, Cate Blanchett. Seja o poeta Dylan/Rimbaud interpretado por Ben Whishaw, ou ainda o fora-da-lei Billy The Kid, interpretado por Richard Gere. 

Épico, dramático, intimista, western, road movie. O filme se transforma na medida em que cada um dos personagens se sucedem. Outro ponto alto é a fotografia, muitíssimo bem trabalhada. Ora em preto e branco, ora num colorido no qual vários tons de amarelo se sobressaem. 

Obviamente que aqueles que não são familiarizados, que não conhecem de perto a vida e a obra do biografado, podem não entender todo o alcance do que vêem na tela e se sentirem um pouco “por fora” do contexto. Mas para os fãs e simpatizantes do bardo, posso garantir, é altamente recomendado.
Experimente ler uma das biografias de Bob Dylan disponíveis no mercado, ou ainda assistir o documentário ‘No Direction Home’, dirigido por Martin Scorsese, e depois encarar ‘I’m Not There’. É uma viagem, uma experiência incrível, uma baita iniciação ao universo dylanesco! 

Mesmo as passagens mais complicadas, como p. ex., as cenas do personagem ‘Billy The Kid’, passarão a fazer todo sentido e o expectador poderá facilmente entrar no clima criado por Haynes.

See you later, Allen Ginsberg!